terça-feira, 22 de novembro de 2016

A mobilidade Urbana

A mobilidade urbana é um assunto que está em pauta.
Como as cidades estão preparadas?
Não estão. Não para a maior parte da população, o pedestre.
Este ano participei do Concurso Áreas 40, http://concursoareas40.org/, tive a felicidade de obter o terceiro lugar.
Para colaborar nesse trabalho convidei minha colega, a arquiteta Tatiana Lika Kotaka.


Área de intervenção

Escolhi o Lote 2, Lapa por ser uma bairro com característica mista, com espaços residenciais e comerciais, grande fluxo para integração modal, já que tem estações de ônibus e trem.
O concurso promovido e organizado pelo WRI Brasil Cidades Sustentáveis, http://wricidades.org/, em parceria com a Iniciativa Global em Segurança Viária da Bloomberg Philanthropies, com o objetivo de incentivar a participar em propostas inovadoras para a construção de uma cidade mais segura, saudável e sustentável a partir de políticas de mobilidade nas quais os modos não motorizados e o transporte coletivo são priorizados.
O perímetro Áreas 40 Lapa compreende desde a intersecção entre as Avenidas Pompéia e Francisco Matarazzo seguindo pelas ruas Clélia e Guaicurus, passando pelo terminal da Lapa, Mercado Municipal e várias vias locais.
A Rua Clélia é uma importante via de conexão da região oeste com o Centro da Cidade de São Paulo, portanto possui fluxo intenso de pedestres e veículos, além de atratividade por sua diversidade de uso e do SESC Pompéia.
Croqui da implantação da grande praça entre as ruas Clélia e Guaicurus com fechamento de via


A principal proposta do projeto é reduzir a necessidade de locomoção por meio de transporte particular, incentivar o uso do transporte público, bicicleta e caminhadas. o projeto inclui uma rede de ciclofaixa e ciclovia conectadas com as existentes nas ruas Caio Gracco e Coriolano.
Para a qualidade da locomoção do pedestre o projeto prevê calçadas largas, travessias elevadas, mobiliário urbano adequado, espaços para pequenas praças pulverizadas pelo bairro, espaços para Food Trucks em pontos estratégicos de grande fluxo de pedestres e em áreas de comércio e serviços.
Busca melhorar a qualidade dos usuários do transporte público com ampliação do terminal e criação de abrigos protegidos de intempéries e local de descanso.

Entorno do Mercado Municipal

Para que o pedestre faça seu trajeto com segurança a proposta lança mão de desenhos seguros para com a criação de pontos estratégicos com diminuição de faixas de rodagem de veículos e ampliação de calçadas, faixa de pedestres a cada 100m e travessias elevadas. Também foram criados calçadões para uso exclusivo de pedestres, restrição de veículos em horários de pico em vias com muitos pontos finais de ônibus e alterações em malha viária propiciando melhor leitura, tanto para o condutor quanto para o pedestre.



Calçadão com cobertura na Rua Doze de Outubro

A área conta com sinalização horizontal e vertical, rampas, lixeiras, áreas protegidas, iluminação por Led, paisagismo, desenho de piso, aliados às visuais voltadas para o conforto do pedestre.
A proposta considera a desapropriação de dois lotes para implantação de uma praça com área verde, equipamentos de ginástica, ciclofaixa, ponto de ônibus e permeio para vielas que atualmente encontram-se subutilizadas.
Com isso pretende-se a criação de núcleos locais que estimulem a população a usar o bairro poupando tempo e dinheiro com locomoções em distâncias maiores utilizando veículos particulares.
As travessias elevadas promovem o aumento da percepção dos condutores. Visualmente são mais orientadas e melhoram o ambiente para o pedestre.
A participação no concurso doi mais que um estudo, foi uma reflexão sobre o modo de viver e usar a cidade, pois são nos espaços públicos que acontecem os encontros, o lazer e a vida.

Croqui de uma rua do bairro

Outra característica significativa do bairro da Lapa é que ainda permanecem conjuntos de casas singelas que fazem com que as pessoas que sempre moraram lá se reconheçam no espaço. Firma-se aí a importância da memória.







sábado, 26 de março de 2016

O início, a arquitetura e a influência de Gregori Warchavchik

Meu interesse pelas artes começou na infância, com a influência de minha mãe para as artes plásticas e música e de meu pai para a literatura. Essa vivência me levou anos depois para o curso de Arquitetura.
No primeiro ano da Faculdade descobri numa aula de História da Arquitetura que passara parte de minha adolescência numa casa projetada pelo arquiteto russo Gregori Warchavchik.
A casa, situada à rua Tomé de Souza, no alto da Lapa em São Paulo era de propriedade do Sr. Cândido da Silva e posteriormente do Professor Aúthos Pagano, irmão de minha professora de piano, Dna. Letícia Pagano. 
Doada para a Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo pela viúva do professor Aúthos, atualmente funciona o Centro Cultural de Estudos Superiores Aúthos Pagano.
Em meados dos anos de 1990, a casa já era Centro Cultural e eu participava dos recitais dos alunos de piano da Dona Letícia.
E é sobre o arquiteto Gregori Warchavchik e sua relevância na história da arquitetura brasileira, que inauguro o meu Blog. 
Gregori Warchavchik nasceu em Odessa em 1892 e faleceu em 1972 em São Paulo. Embora não fosse brasileiro foi um dos mais importantes nomes da Arquitetura Modernista no país.
Chegou ao Brasil em 1923, momento em que fervilhava a vanguarda modernista no Brasil. Portanto, período bastante propício para as ideias que trazia da Europa.
Para ele a construção deveria acompanhar a evolução da tecnologia da época. Eliminar os detalhes decorativos, pois os ornamentos eram imitações da arquitetura clássica, a qual deveria servir de repertório para equilíbrio e proporções e não imitação do passado, como vinha sendo feito.
Em 1928 é concluída a Casa da Rua Santa Cruz, no bairro da Vila Mariana em São Paulo, onde mora com a família. A primeira casa modernista do Brasil.
Seguem algumas imagens, ainda que singelas, que ao meu ver, são iconográficas para o entendimento da grandiosidade da obra deste arquiteto, cuja contribuição para a nossa arquitetura é de extrema relevância.

Casa da Rua Santa Cruz, Vila Mariana- São Paulo


Foto da Casa da Rua Santa Cruz, residência do arquiteto: fotografia.folha.uol.com.br

A Casa da Rua Santa Cruz hoje pertence ao Estado de São Paulo e é tomabada pelo CONDEPHAAT.
A racionalidade, conforto, iluminação, funcionalidade e ventilação foram os objetivos principais que o arquiteto levou em consideração no projeto, seguindo os preceitos básicos preconizados por Le Corbusier.
 "O mais curioso é que Warchavchik pode e soube extrair para a casa da Rua Santa Cruz interessantes elementos do nosso colonial, e isso porque, ao contrário dos demais pesquisadores que preocupados exclusivamente com o ornamental do nosso velho estilo, se esqueceram de ver nele, como Warchavichik, o essencial. E foi  assim que o ilustre arquiteto russo, a quem São Paulo deve esse imenso serviço, chegou, sem esforço, a lançar as bases de uma arquitetura , essa sim puramente brasileira, ou melhor, tropical, de tal modo de adapta as condições e circunstancias do meio ambiente e corresponde as necessidades do nosso clima, temperado, tradição, costumes etc. (Estraído de um artigo de Osvaldo Costa (sob o pseudônimo de Antônio Raposo). (São Paulo, Correio paulistano, 8 de julho de 1928)." (1)

Casa da Rua Tomé de Souza, Alto da Lapa- São Paulo

Casa da Rua Tomé de Souza conforme projeto original do arquiteto.
Fotos tiradas de fotografias de propriedade do Centro Cultural de Estudos Superiores Aúthos Pagano

A casa sofreu muitas transformações. Atualmente possui um pequeno auditório nos fundos, a rampa e o espelho d'água foram eliminados. Há também um fechamento em vidro sob a marquise, foi construída garagem no nível da rua e a cobertura foi extremamente modificada, como mostram as fotos abaixo. 
 
Centro Cultural de Estudos Superiores Aúthos Pagano
Foto do arquivo pessoal- 2015
Vista para a garagem, transformada em edícula
Foto do arquivo pessoal- 2015
Vista para o auditório, construído posteriormente para o Centro Cultural Arquivo pessoal- 2015

Escritório do professor Aúthos Pagano
Arquivo pessoal- 2015

Sala de estar
Acervo pessoal- 2015
Detalhe do peitoril revestido em madeira.
Foto arquivo pessoal- 2015

Sala de Jantar
Acervo pessoal- 2015

As experiências estéticas são fundamentais para a formação de um artista. A obra de Warchavchik foi um "norte" para alavancar minha formação como arquiteta.
Alguns detalhes de mobiliário como da estante envolvendo o nicho da parede, janela em ângulo reto, como podem ser notadas na foto da Sala de estar, me chamaram a atenção, assim como também as linhas leves e claras dos desenhos de Warchavchik.
Isso tudo é bem documentado no livro de Geraldo Ferraz. "Warchavchik e a introdução da nova arquitetura no Brasil: 1925 a 1940", presenteado por minha mãe quando eu ainda era estudante.

Foto do jardim com vista para a rua Tomé de Souza
Arquivo pessoal- 2015
"...em São Paulo, o ano de 1929 foi caracterizado pela grande independência de ideias no campo das construções. O jovem arquiteto Warchavchik, que foi o primeiro a introduzir a nova concepção arquitetural na América do Sul, construiu diversas casas. Suas construções tem valor monumental e notável dadas as suas plantas severas e linhas sóbrias. (Balanço literário e artístico do ano de 1929) por Osório Cesar- Jornal de São Paulo, 4 de janeiro de 1929). (2)
1- FERRAZ, Geraldo- Warchavchik e a introdução da nova arquitetura no Brasil: 1925 a 1940, p.60
2- FERRAZ, Geraldo- Warchavchik e a introdução da nova arquitetura no Brasil: 1925 a 1940, p.76